domingo, fevereiro 20, 2005

9:48 da manhã - estação Uruguaiana
"Pronto, chegamos." Ela pensou.
Olhou pro reflexo na propaganda de financiamento à casa própria.
Tinha um olhar triste, mas um sorriso tímido. Naquele instante muita coisa passava por sua cabeça, ocorre que tinha apenas 3 segundos para empurrar o cara grandalhão e pedir licença à velhinha que estava na sua frente.
Deveria saltar correndo, antes que a porta fechasse e só conseguisse saltar na próxima estação.
Então, tentou, em vão, se esquivar das pessoas humildes que tinham lotado o metrô na Estácio e elegantemente ia alcançando a porta.
Até que lhe chamam, na verdade fazem sons guturais para que sua atenção seja chamada. Apertam seu braço, puxam e dizem que esqueceu a sacola no banco.
As portas fecham, fica parada. Tonta com a sacola na mão e o sorriso pálido nos lábios.
Foram solidários, afinal. Próxima estação, tem que trocar de metrô e mudar a direção.
Atrasada.
Não entende porque este cotidiano deveria ser tão reflexivo num momento automático como pegar o transporte público para ir ao trabalho.
Se não tivesse avaliado sua própria imagem no reflexo da propaganda, nada disso teria acontecido.
10:05 - Carioca
Volta. Correndo. Tentando alcançar o metrô que acaba de partir. Não consegue, espera anciosa o novo trem, mas nada acontece. Sete minutos aflita, 420 segundos sem fazer nada, ou melhor, apenas pensando.
Porque diabos pensava tanto?
Pensava em tudo, nos olhos tristes e cansados, no sorriso maroto para o menino ao lado, na lista de pendências que a esperava no trabalho.
Chora à seco. O metrô chega. Ela não entra.
Sentada deselegantemente no chão espera o metrô passar.
Ela não quis mais pensar.

" A vida não é medida pelo número de vezes que você respirou, mas pelos momentos em que você perdeu o fôlego"

++ escutando: menina da lua

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