Estava seguindo sentido Uruguaiana, correndo para pegar o segundo vagão e tentar viajar sentada.
Tinha acabado de ganhar a revistinha do metrô que é distribuída gratuitamente na última quinta-feira do mês.
Já estava atrasada, pegar aquele vagão seria essencial. Vir sentada seria ótimo. Ainda mais com o novo adereço entre os dentes que estavam desconfortavelmente se ajeitando entre a língua e a gengiva. Ossos do ofício.
Corrida planejada para chegar no vagão lotado. Opa, lotado não. Tem uma vaga entre os assentos preferenciais.
Ah! Os assentos preferenciais! Eles deviam dar choque em quem não tem preferência, porque perto deles ficam vários velhinhos, grávidas e afins com cara de pedintes, já que neles estão sentados homens de meia idade com cara de pau suficiente para não levantar para os preferenciais. Nunca sente nos preferenciais. Aliás, nem fique perto deles. Eu fujo. Normalmente, a estratégia é sentar nos cantos do vagão. Ontem foi diferente. Só tinha um lugar verde entre os preferenciais. Como tinha a revista pra ler, era de bom tom sentar. Arrisquei.
Sentada do lado de um marmanjo de seus 40 anos, barbudo e gordinho, que estava no outro lugar verde e, portanto, permitido, tive a grata surpresa de receber um beijinho de uma criança que estava em seu colo, com seus talvez 2 anos. Cabelinho comprido encaracolado, tal qual uma anjinha, uma faixa preta no cabelo que protegia as madeixas de cair no enorme curativo com gaze que ocupava a testa toda, sorrio olhando pra velhinha simpática do outro lado no assento laranja.
- Mas que bonitinha!!
No que retruca o marmanjo com a criança no colo.
- É ele.
